Não coma o marshmallow agora!

Lagarta Pintada Reply 22:19

O que acontece se você oferecer a uma criança a possibilidade de ganhar um segundo marshmallow se ela esperar 15 minutos antes de comer o primeiro?

Pois esta pergunta, aparentemente inocente, foi feita por psicológos na Universidade de Stanford, que realizaram um experimento com crianças de 4 anos de idade. A idéia era testar o desenvolvimento do conceito de gratificação retardada, ou seja, a habilidade de resistir a uma recompensa imediata e esperar por uma recompensa melhor que virá depois. Este conceito, segundo especialistas, está na base da capacidade humana de planejar, investir e se sacrificar em prol de um bem maior no futuro. 

O teste do marshmallow

O experimento, feito nos anos 60 e 70, apurou que apenas 1/3 das crianças eram capazes de esperar os 15 minutos para ganhar dois marshmallows. Os outros dois terços devoraram a guloseima sem pensar duas vezes. 

Anos depois, os pesquisadores entraram em contato com as mesmas crianças, já então jovens adultos, e descobriram que 100% daqueles que não tinham comido imediatamente os seus marshmallows iam bem nos estudos, eram felizes e socialmente ajustados. Já os outros dois terços...

O teste ficou famoso e o conceito de "gratificação retardada" passou a ser difundido como atributo importante e capaz de predeterminar vários comportamentos bem-sucedidos. No vídeo abaixo, Joaquin de Posada, conhecido por suas palestras motivacionais e autor de um livro sobre a "questão do marshmallow", mostra como crianças colombianas de 4 anos de idade resistem à tentação:



A idéia é clara: ensinar ao seu pequeno as virtudes da gratificação retardada é um excelente investimento educacional. O problema aparece quando começamos a pensar na vida prática: como e quando ensinar gratificação retardada ao seu filho?

Como aplicar o conceito no dia-a-dia

A primeira interpretação, e na minha opinião a mais rasteira, que deriva deste conceito é: ensinar seu filho a conviver com a frustração. E virão os conselhos: "Assim é que ele vai aprender que ele não pode ter tudo o que quer na hora em que deseja..." Um  momento clássico ocorre com os hábitos de sono do bebê, quando a sogra, tia ou mãe vaticina: "deixa esse menino chorar no berço para ele aprender, isso é manha..."

Neste ponto, é importante traçar uma distinção e refletir a partir de que ponto uma criança está apta a compreender racionalmente o conceito de gratificação retardada. E, de acordo com estudos (que eu citei em um post anterior), o cérebro racional da criança só começa a se desenvolver a partir dos nove meses de idade, e vai amadurecendo com o desenvolvimento da linguagem. Ou seja, pode esquecer, que não existe isso de ensinar gratificação retardada ao seu bebê de cinco meses que está chorando no berço há quinze minutos! Só o que você irá conseguir é imprimir nele a sensação de que o mundo a sua volta é inseguro, pois o cerebrozinho nesta idade lida apenas com as sensações de sobrevivência.

Meu argumento é de que, nos primeiros meses de vida, o bebê necessita de gratificação instantânea. Ele só possui instintos de sobrevivência. Cabe ao cuidador imprimir nele a segurança de que ele não corre riscos.  À medida em que a criança começa a desenvolver a linguagem, o que corresponde também ao desenvolvimento da parte mais "racional" do cérebro (o córtex pré-frontal), aí então é o momento para os pais e educadores começarem lentamente uma estratégia de desenvolvimento da gratificação retardada. Primeiro passo? Fazer a criança aprender a esperar. Bom, eu sei que não dá para ensinar uma criança de 2 anos a deixar de brincar agora para poder brincar mais tarde, mas você pode, pouco a pouco, exercitar o conceito da espera e ir aumentando a duração com o passar do tempo. Abaixo, algumas sugestões por faixa etária:

12 a 24 meses - Minha filha Sissi está exatamente nessa faixa. Comecei a trabalhar com ela o conceito de "espera". Sempre que eu uso a palavra "espera" ou "calminha" eu modulo a voz para ela entender que se trata de algo importante. Às vezes, ela quer subir no meu colo imediatamente, às vezes ela quer que o vídeo da Galinha Pintadinha no YouTube não seja interrompido (algo quase impossível com a nossa conexão de internet atual). Nessas ocasiões, lá vem minha advertência, que eu acompanho sempre do gesto com a mão espalmada, para dar apoio visual. Ela já entende e repete: "Caminha!" :)
Recentemente, começamos a trabalhar as palavrinhas mágicas. Por enquanto, estamos só no "por favor", que eu estou achando uma ótima "palavrinha" para ensinar gratificação retardada. Ela quer algo, quer logo, pede choramingando. Eu pauso e pergunto: como é que se pede? E ela já sabe que tem que pedir de novo, sem choramingar. E ela faz: "pofavôoo..."

24 a 36 meses - Já com habilidades de linguagem mais desenvolvidas, é possível começar um "treinamento" mais avançado. Seu filhinho está insistindo para comprar um biscoito ou algum brinquedinho dentro do supermercado? Ofereça-lhe dois, mas diga que só vai poder comer depois do jantar, ou brincar no fim de semana, por exemplo. (Aproveite para treinar com ele a contar quantos dias faltam para o fim de semana...)
Outra forma de estimular a habilidade de postergar a recompensa é elogiar o esforço do seu filho ao invés do resultado. Ao invés de dizer "que lindo o seu desenho!" você pode redirecionar o foco do elogio dizendo: "a mamãe está orgulhosa porque você passou todo esse tempo se esforçando para fazer esse desenho!". O foco no esforço transfere o reforço positivo para o processo (e não para o resultado, o que, no limite, estaria reforçando a idéia de que "os fins justificam os meios").

Acima de 3 anos - nessa idade, a criança já começa a desenvolver raciocínio abstrato e pode exercitar, por exemplo, alternativas como forma de lidar com a frustração. Um exemplo seria uma situação em que seu filho está em um parquinho esperando a vez para usar, digamos, a gangorra, quando existem outras crianças brincando. O tempo passa e seu filho começa a se impacientar. Quais as alternativas possíveis?
1 - Pedir às crianças que estão brincando que dêem a vez a seu filho -- o que, confesso, seria meu primeiro impulso! (Só que isso equivaleria a resolver o problema pela criança);
2 - Outra resposta possível é o pai/mãe não fazer nada, o que comumente levaria a criança a atingir um nível de frustração que acabaria em birra e estresse.
3 - Uma terceira atitude, contudo, consiste em reconhecer a situação de frustração e oferecer uma alternativa. Algo do tipo: "Ok, temos que esperar que as outras crianças terminem de brincar para você poder subir na gangorra. Vamos brincar na caixinha de areia enquanto a gente espera?".

Com a terceira alternativa, o adulto está em realidade ensinando a criança mecanismos de auto-controle. Reparou no vídeo das crianças que não comeram o marshmallow? Como elas lidam com a ansiedade e a frustração de ter que ficar olhando para a guloseima sem comer? Um menino faz desenhos em volta do doce (ou seja, se auto-distrai), outra menina cheira o marshmallow, como que antecipando o prêmio que virá. A distração e a antecipação mental da recompensa são estratégias que você pode ensinar a seu filho em acontecimentos do dia-a-dia.

Aprender a aceitar a gratificação retardada é um aspecto essencial do crescimento emocional. As crianças educadas sem essa noção não se preparam para lidar com desafios e enfrentar as frustrações que a vida adulta irá lhes impor. Tipicamente, podem se tornar dependentes de alguém para fazer isso para elas. O desafio dos pais é demonstrar que o esforço compensa, mesmo que os resultados sejam desanimadores no começo.

Mais informações:
*A íntegra do vídeo em que Joaquin de Posada fala sobre o experimento com as crianças colombianas pode ser vista aqui. O livro dele chama-se Don't Eat the Marshmallow Yet! e trata do princípio da gratificação retardada (delayed gratification) como base para ser bem-sucedido, tanto para crianças quanto adultos.

O blog "Cientista que virou mãe" tem um post muito interessante sobre porquê deixar o bebê chorar para que ele "aprenda" a dormir não é bom para a criança. Leia aqui.


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Olhando no espelho

Mãe lagarta em metamorfose permanente... com família a reboque mundo afora.

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