A letra cursiva no século XXI - e como estimular seu filho a escrever mais e melhor

Lagarta Pintada Reply 01:06

Com a comunicação eletrônica ocupando cada vez mais espaço na vida das famílias, as crianças de hoje aprendem a teclar antes de escrever e se familiarizam com o YouTube quando ainda nem sonham em andar de bicicleta. O mundo está substituindo, cada vez mais, o papel pelo computador, até mesmo nas salas de aula. 


A letra manuscrita estaria com os dias contados?


Na competição entre o digital e o manual, muitas escolas estão deixando de valorizar a letra manuscrita, sobretudo a cursiva, em detrimento de uma exposição cada vez maior à letra impressa. A caligrafia virou coisa do passado e hoje tem fama de exercício mecânico e alienante. Quando eu era pequena, me lembro de que fazer caligrafia já era considerado uma forma de punição: cópias exaustivas de palavras sem contexto, depois da hora, no caderno com as linhas apertadinhas...

E ninguém duvida que os computadores vão substituir os cadernos em sala de aula num futuro não muito distante... Por isso é importante que os pais se informem e cobrem um posicionamento didático coerente da escola sobre o método de alfabetização e o estímulo à escrita manual.

Para refletir melhor, precisamos avaliar os benefícios de mergulhar na modernidade, priorizando a digitação, contra a apostar no ensino das perninhas do "m" e da barriga do "b"...

Mesmo considerando dois tipos de escrita manual -- letra bastão e letra cursiva, há diferenças importantes. O site Brasil Escola oferece, por exemplo, uma comparação interessante entre os dois estilos. Alguns aspectos citados como vantagens da letra de forma (ou bastão) são o fato de exigir esforço menor do aluno e a facilidade em reconhecer o alfabeto nos materiais impressos. Com isso, a criança dominaria a leitura e a escrita mais rapidamente. Já a letra cursiva, que precisa ser "desenhada", é mais difícil e atrasa o reconhecimento de cada letra nas palavras; o aluno tende a encontrar mais dificuldades em dominar os movimentos para representar a escrita corretamente, resultando em um processo mais lento.

A importância da letra cursiva

Muitas escolas estão fazendo a opção pela letra bastão, convencendo os pais de que o filho vai aprender mais rápido dessa forma. Mas se olharmos para os países que fizeram a transição há muito mais tempo, vamos encontrar um cenário interessante: movimentos de pais e educadores em prol do retorno da escrita manual à moda antiga. Nos EUA, onde um intenso debate sobre o tema ocorre há anos, existem até mesmo leis que fixam um mínimo de horas semanais dedicado à instrução com letra cursiva.

Isso porque pesquisas recentes apontam para muitos benefícios desse tipo de escrita. Um estudo  aponta para o fato de que o esforço empregado para "desenhar" a letra funciona como uma ginástica para o cérebro da criança. O mapeamento funcional do cérebro de alunos em fase de alfabetização mostra que, quanto maior o esforço manual para aprender a escrever, mais áreas cerebrais são ativadas e estimuladas. O contrário acontece quando as crianças aprendem a escrever com letra bastão ou somente a digitar. A hipótese, portanto, de que é vantajosa a facilidade na letra de forma ou da digitação não parece ter fundamento.

Os avanços mais recentes da Neurociência atestam que, durate o processo de aprendizagem da letra cursiva, o cérebro desenvolve a capacidade de especialização funcional -- integrando sensações, controle de movimento e raciocínio. Para poder escrever de forma legível, é necessário desenvolver a coordenação motora fina, o que envolve:

- relacionar o posicionamento de cada traçado e o tamanho das letras entre si;
- aprender a inclinação e os detalhes característicos de cada letra manuscrita;
- desenvolver a habilidade de categorizar.

Ou seja, a escrita cursiva consiste em uma atividade altamente complexa e sofisticada, que prepara o cérebro para realizar tarefas mais elaboradas na vida acadêmica futura da criança. Justamente porque os movimentos exigem maior coordenação, o formato das letras varia de pessoa para pessoa, sendo menos estereotipado, é que o reconhecimento visual estimulam um repertório mental mais elaborado.

Associações positivas

Existe uma conexão importante entre as mãos e o desenvolvimento do cérebro. A cada vez que a criança usa as mãos e adquire dextreza manual, mais circuitos são formados em seu cérebro, criando associações mentais com cada sensação e movimento. Por isso, atividades como  desenhar, empilhar blocos, pintar, recortar -- são tão importantes. A coordenação motora estimulada pela atividade escrita também produz o mesmo efeito no desenvolvimento mental da criança.

Como estimular a escrita manual em casa

É possível criar um ambiente fértil para estimular a escrita em casa. Partindo do concreto, ou seja, de elementos conhecidos do cotidiano da criança, faça com que ela perceba como a escrita é importante -- e pessoal. Mostre que a caligrafia é uma marca da personalidade de cada pessoa, comparando a letra de pessoas da família e de conhecidos. Elementos sensoriais ajudam a despertar uma relação original com a escrita. Por exemplo, uma forma retangular cheia de areia, açúcar ou sal pode servir como um "risque-rabisque" primitivo em que o pequeno desenha com os dedos! E para apagar, basta uma sacudida...

Crédito: Montessori N'Such

O que mais você pode fazer quando seu filho começar a se interessar pelas letras...
  • Ofereça papel em tamanho extra-grande (como os vendidos em rolo) para permitir desenhos em larga escala.
  • Compre lápis e giz de cera em formato triangular, que ajudam a desenvolver a forma certa de segurá-los.

    A diferença entre o posicionamento dos dedos
    usando lápis triangular e lápis redondo 
Como dá para perceber pela ilustração acima, o lápis triangular ajuda os pequenos a posicionarem corretamente os dedos para traçar formas e letras com mais firmeza. Por isso, são mais indicados para crianças em idade pré-escolar, que ainda não tem habilidade para firmar o lápis na mão com os dedos polegar, indicador e médio (a chamada "preensão trípode").

Durante o processo de alfabetização...

  • Transforme a rotina em um grande jogo de caça-letras! Escolha uma "letra da semana" e peça a seu filho para identificar o maior número de palavras com aquela letra: no supermercado, no consultório médico, nas placas de rua... Conte quantas letras ele conseguiu achar no final de cada dia e façam um quadro de resultados. Pode até virar um jogo em família!
  • Peça "ajuda" para fazer a lista de compras. Mesmo que seja só a primeira letra de cada item. E depois, faça as compras de verdade. (Nada pior do que a criança sentir que a contribuição dada foi irrelevante...) 


Por mais que a tecnologia nos rodeie, é quase impossível imaginar um mundo sem alguma forma de escrita manual. Emails e mensagens de texto não passam o mesmo que uma mensagem escrita à mão. Não deixe escapar essas oportunidades: escreva cartões de aniversário, etiquetas "de/para", mande cartões postais (mesmo aqueles gratuitos que você consegue na lanchonete). Que tio, tia, avô ou avó não adoraria receber um cartão, mesmo todo rabiscado?


Seu filho irá, aos poucos, descobrir que escrever à mão é uma atividade social, além de criativa e com sentido prático!

Referências:
http://www.psychologytoday.com/blog/memory-medic/201303/what-learning-cursive-does-your-brain
http://www.montessoriservices.com/newslettercustom/index/newslettercustomdetail?id=72

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Olhando no espelho

Mãe lagarta em metamorfose permanente... com família a reboque mundo afora.

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