Dois animais de estimação e um funeral

Lagarta Pintada Reply 12:38
Recentemente fizemos o nosso primeiro funeral. É sério, Sissi e eu tivemos que enterrar a hamster, misteriosamente falecida durante uma madrugada de inverno. Não que o inverno tenha sido a causa, já que aqui nos Emirados Árabes não faz frio realmente. Snowie -- que é como se chamava a ratinha -- dormiu bem uma noite, mas no dia seguinte jazia durinha dentro da gaiola. 

Tive um impulso de jogar hamster e gaiola fora sem dar satisfação à minha pequena imperatriz. Desisti da idéia. Achei que não era certo e, melhor ainda, podia estar desperdiçando um momento "didático". Melhor explicar tudo e providenciar o enterro. Antes de pegá-la na escola, fui bolando um plano para abordar o assunto. Decidi dar algumas pistas, sem uma conclusão definitiva: "Acho que a Snowie não está muito bem. Ela não se mexeu hoje durante a manhã toda."

A morte de um bichinho de estimação é possivelmente a primeira experiência que uma criança tem com perdas definitivas. E, talvez possa parecer meio mórbido, mas achei que fazer um funeral podia ajudar a refletir sobre o assunto. Cinco anos é aquela idade em que a criança começa a fazer perguntas filosóficas, do tipo olhar pela janela do avião e perguntar, "mas cadê o Papai do Céu?" e coisas do gênero. E a morte é um desses temas complexos, que eu sei que assustam a Sissi. Ela, por exemplo, repete para quem quiser ouvir que só vai crescer e fazer aniversário até os 10 anos, porque ela não quer crescer mais para não morrer.

Então... decidi transformar tudo numa atividade lúdica, que começou pela confecção do caixão: uma caixa de sapatos devidamente decorada para a ocasião.
Toda a atividade foi divertida e leve, parecia que ela nem estava muito preocupada com o destino final da brincadeira. Enfim, chegou a hora H. Procuramos um lugar perto do muro de casa, eu cavei, e lá se foi a nossa defunta.










Ficou tudo bem. Já era quase hora de dormir quando veio a pergunta filosófica: "Mamãe, quando é que a Snowie vai voltar?". A conversa que tivemos em seguida me deixou com os olhos de lágrimas, quando ela finalmente se deu conta de que a ratinha ia ficar enterrada para sempre. Tentei apelar para um sentido mais espiritualista, e explicar que o espírito da Snowie ia para um lugar bem bonito, junto do Papai do Céu, e ia ficar lá de longe olhando a gente... "Ela vai olhar tudo que a gente faz mamãe?" Quase tudo, filha, às vezes ela pode se distrair.

Quando eu me deitei, do fundo do coração, agradeci eternamente já termos adotado outro animal de estimação - uma gata - antes da morte da Snowie.

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Olhando no espelho

Mãe lagarta em metamorfose permanente... com família a reboque mundo afora.

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Porque sem sair do casulo, ninguém descobre a verdadeira identidade.

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