Como aprendemos nossos traços culturais?

Lagarta Pintada 2 11:01
Vivendo há seis anos no exterior e criando uma filha pequena, existe uma pergunta que vive me rondando -- como é que nos tornamos brasileiros? Ou, em outras palavras, como posso ter certeza de que minha filha pequena crescerá "culturalmente" brasileira mesmo sem ter nascido no Brasil e só indo ao País uma vez por ano por 30 dias?

Todo mundo sabe que a cultura não é transmitida geneticamente. As crianças adquirem traços culturais com a convivência, de forma inconsciente. Quando a criança atinge cinco anos de idade, os alicerces de pertencimento cultural já estão todos assentados. Sissi tem menos de quatro e já vejo algumas indicações claras de que ela é, como eu, "diferente" dos locais aqui nos Emirados Árabes: beijamos mais, abraçamos mais, falamos mais (e mais alto), somos mais transparentes. 

O problema de ser diferente é que isso pode até fazer você ganhar admiradores, mas sempre tem um custo. Portanto, mais do que a preocupação que minha filha seja "culturalmente brasileira" e não chegue depois no Brasil e se sinta uma estranha no ninho, eu penso muito em como prepará-la também para ser culturalmente competente em qualquer lugar onde venhamos a viver. Mas como fazer isso? Como proporcionar a ela as experiências concretas para que ela possa desenvolver uma identidade cultural e ao mesmo tempo se sinta à vontade em outros espaços?

Pois hoje eu tive uma experiência reveladora sobre isso. Entrei em uma loja com a pequena, disposta a comprar um cinto para ela. A loja era a Claire's, típica armadilha para mães: vende tudo que é tipo de colar, pulseira, bolsa e acessório que se pode imaginar. Eu já tenho um protocolo preparado para esses casos e Sissi já sabe: só podemos comprar UMA coisa. Ela pode olhar e experimentar, mas no final tem que escolher SOMENTE uma coisa. Não tinham cinto, então deixei-a escolher outra coisa, que foram uns adesivos de colar nas unhas. Na saída, vi umas liguinhas de cabelo no balcão e me lembrei que estavam quase se acabando em casa, então incluí no pacote.

A compra transcorreu sem problemas, Sissi cumpriu com a sua parte e saímos as duas satisfeitas. Ao chegar em casa, olhando para o saquinho com os adesivos e as liguinhas, ela me perguntou: "Mamãe, porque nós trouxemos DUAS coisas?"

Eu gelei. Me dei conta, rapidamente, de que tinha dado "um jeitinho" na regra criada por mim mesma. Ora, se só pode comprar uma coisa, então é só uma, né? Mais ou menos, qualquer brasileiro sabe. É assim que a gente aprende -- para o bem e para o mal -- os traços da nossa cultura. Sua mãe diz que não pode, mas deixa ficar mais um pouquinho. E então, por mais que ela diga que não, você acaba aprendendo que pode sim, tem sempre um jeitinho.

Bom, essa é uma das características típicas do brasileiro que eu não acho que vá fazer falta a minha filha. Por isso, respirei fundo (ao invés de me culpar pelo furo, procurei me sentir grata pelo "insight") e respondi: "Você escolheu uma coisa e eu escolhi uma coisa também. Uma para cada uma." Ela sorriu. E, eu, consciente do meu jeitinho, prometi a mim mesma ser mais vigilante e não deixar passar a próxima oportunidade de reforçar o respeito absoluto às regras. 

Porque a gente não precisa aceitar nossos defeitos como fatalidade cultural.

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2 comments

Oi Daniella! Adorei o post e amei o blog! Obrigada por compartilhar as suas experiências conosco. Beijo

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Olhando no espelho

Mãe lagarta em metamorfose permanente... com família a reboque mundo afora.

Brasil, Estados Unidos, Bolívia e Emirados. Água, terra, fogo e ar.

Porque sem sair do casulo, ninguém descobre a verdadeira identidade.

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