Famílias em trânsito

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Por Felicia Jennings-Winterle


Em tempos pós-modernos como os nossos, o mosaico formado pelos diferentes tipos de famílias é coloridíssimo devido a esse processo maluco que chamamos globalização. Parece meio batido, mas é só porque já estamos tão inseridos neste processo que converteu o mundo em algo mais abarcável e menor.

A imigracão internacional é parte integrante da globalização e segundo pesquisadores, pode ser definida como um acelerador desta interconexão mundial. Em consequência a esse fenômeno complexo de estreitamento do mundo, surgem novos tipos de família e novas definições. No artigo de hoje, falaremos sobre as famílias em trânsito.


Famílias em trânsito são aquelas que migram de cidade ou de país, por um período de tempo determinado. Indivíduos que trabalham em multinacionais, mercados mundiais, organizações governamentais, diplomatas, estudantes, atletas etc. são representantes deste grupo. Uma migração transitória tem uma data e passagem de volta, e por mais que não se saiba o dia exato, “volta” é uma ideia que se tem desde o início e que é definitiva em todos os eventos envolvidos nesse processo. A característica do migrante transitório é que ele não pode fazer raízes. Ele sabe que vai embora e que não deve jogar âncoras.

Se identificou?



Silvia Korenblum, autora do livro Famílias en tránsito: Las mudanzas internacionales y su impacto familiar, à venda no site da Amazon, discorre brilhantemente sobre o tema num livrinho de leitura fácil que você pode terminar em uma sentada.

Sendo este um processo cada vez mais recorrente, diversas discussões e pesquisas são realizadas a respeito: os processos de adaptação e readaptação, como manter a língua e a cultura materna, como adquirir a língua e cultura local e como manter a família unida.


Flexibilidade e adaptabilidade

As famílias em trânsito estão expostas a adaptações difíceis, o que muitas vezes pode definir o fracasso de um processo de expatriação. Assim, não só o indivíduo convidado a migrar deve receber preparação de sua firma, por exemplo, mas sim deve se incluir a família toda numa conversa sobre o impacto cultural que sofrerão.

Korenblum conta diversos casos de indivíduos parte de uma família em trânsito e, sob diferentes perspectivas e papéis, discute como tais processos podem ser dolorosos, mas também muito bem sucedidos.

Ela explica que flexibilidade e adaptabilidade são características essenciais para uma família em trânsito. Famílias flexíveis confrontam as mudanças de maneira mais fácil e se adaptam melhor a elas. Já as que não são flexíveis experimentam conflitos e é necessário ajudá-las a estabelecerem uma sensação de continuidade.

A adaptabilidade de uma família está intimamente ligada ao grau de flexibilidade e ao tipo de atitude frente a mudanças. Segundo o psiquiatra David Olson, adaptabilidade é a capacidade de mudança na estrutura de poder, na relação de papéis e regras em resposta a uma situação que um casal ou uma família possuem. Diversas dificuldades e desavenças acabam ocorrendo, por exemplo, quando a esposa, que antes era uma mulher de carreira em seu país, muda-se para outro no qual agora passa a só ficar em casa com as crianças. Sem carreira, sem amigas e sem o marido por grandes porções do dia, esta mulher passa por períodos de bastante desafio.

Interessante o bastante, a autora define a mãe como dona do papel principal no processo de mudança e adaptação. Em geral, as mães estão ligadas ao processo de adaptação dos filhos e do marido, e funcionam como pivô (ponto fixo) no qual o resto da família se apóia. Crianças pequenas, diz a autora, passam de um país para o outro de maneira estreitamente relacionada a como a mãe age frente ao deslocamento e as dificuldades invitavelmente ligadas a este.


Identidade: uma base segura

A migração transitória é portanto, uma situação desestruturante e que necessita de uma base segura. Korenblum diz que a família necessita nesse momento de um sentimento de “somos nós mesmos” muito definido, que funciona como base segura interior ao processo de individualização de cada membro da família, até que eles cheguem ao “Sou eu mesmo. Onde estou e o que farei neste novo contexto, nesta nova realidade, neste novo colégio, nesta nova cidade, neste novo país?”

A percepção que um indivíduo tem de sua própria identidade contém uma coleção de imagens de si mesmo. É um mapa interno pelo qual os indivíduos se orientam pela vida, diz Korenblum. O sentimento de pertencer envolve um imaginário coletivo, que agora, fora do país de origem, significa a própria família. A identidade cultural, portanto, consiste em um processo pessoal, que vai se formando através da experiência e do conhecimento, num movimento contínuo de troca e crescimento social. E língua é -- num sentido muito material -- o que significa o conceito identidade. Sabiamente dito por Fernando Pessoa, a minha língua é a minha pátria. 


Línguas em trânsito

O psiquiatra infantil e professor do Instituto de Psicologia da USP, Francisco Baptista Assumpção Junior, acredita que essas vivências internacionais muitas vezes são acompanhadas de um distanciamento da própria cultura, que pode acabar tornando a criança uma estrangeira dentro da própria casa. Em entrevista à revista Crescer sobre o tema educação bilíngue, ele diz: “As raízes são um importante suporte, uma sustentação para a sanidade mental de uma pessoa. Uma criança que se afasta da cultura de seu país, de sua família e dela própria corre o risco de sofrer um desenraizamento, perder sua identidade, envergonhar-se do que é e passar a querer ser algo que não é, ter o que não tem”.

O professor alerta para a falta de vínculo entre familiares e entre culturas totalmente sem sentido. Infelizmente, e talvez por falta de preparo e planejamento, pais de famílias em trânsito se esquecem de incluir objetivos e estratégias que nutram os interesses da criança em trânsito.

Essa criança que não foi chamada para um novo posto consular ou para um doutorado com bolsa sanduíche é literalmente jogada na sociedade atual, num idioma desconhecido e o-bri-ga-da a deixar de lado sua língua materna. Língua esta, vale lembrar, que será requerida, em um dado momento a nível de cidadão brasileiro, já que “volta” é um ideia certa em sua realidade.

A fonoaudióloga Beatriz Araújo, também em entrevista à revista Crescer, enfatiza que, independentemente de a criança se aprofundar no idioma local, inclusive como parte de seu sucesso acadêmico, e consequentemente emocional, sua primeira língua deve ter espaço destacado. “É por meio dela que a criança vai conseguir se expressar, pois seu lado afetivo está relacionado a essa língua. Para isso, o uso da língua materna em casa pode ser incentivado expondo a criança a livros, histórias, músicas, filmes e eventos culturais nesse idioma. Tal estímulo pode contribuir com a elaboração da fala, com um bom desempenho da criança na leitura e na escrita e ajuda a evitar uma possível defasagem no português”.

A especialista ainda salienta que a criança que possui uma primeira língua forte tem chances muito maiores de estruturar melhor o aprendizado de um segundo idioma. Porém, migrantes transitórios se apóiam em argumentos desvalidos e inapropriados e, no afã de prevenir dificuldades de adaptação, cometem a atrocidade, entre outras, de dialogar com seu filho brasileiro na língua local. Não só eles, o pai ou a mãe, não tem proficiência nativa, como impõem suas próprias dificuldades linguísticas numa criança que poderia fazer desta experiência uma chance de se tornar bilíngue.

Que fique bem claro. Em trânsito ou permanente, escolher falar somente a língua local é tolhir um futuro que poderia ser brilhantemente bilíngue. Tendo em vista o mix cultural da família e a convivência a curto e médio prazo em uma sociedade estrangeira, no caso dos transitórios, esta criança que tem as condicões ideais para se tornar um bilíngue 100% funcional, se torna um adulto frustrado, e por vezes, com dificuldades, inclusive, na língua do lugar onde vive.



DICAS para que esse processo seja confortável e as mudanças mais amenas

A boa notícia é que o ser humano tem uma capacidade notável de adaptação e integração.

  • Mantenha uma relação intensa com a comunidade de origem

Procure um grupo comunitário de brasileiros em sua cidade, universidade ou empresa. Envolva-se em eventos, especialmente aqueles que promovam atividades para crianças. Assim, a família toda se sente parte deste processo que começou por causa dos interesses de um integrante.

  • Mantenha a língua materna em casa, assim como os costumes alimentares e a cultura como um todo

Mudança não significa apagamento e adaptação não se dá sem uma volta diária às raízes. Procure comprar itens no supermercado local que combinados façam uma comidinha caseira ter o gosto (nem que seja parecid0) com o do país de origem. Mantenha com seus filhos tradições como assistir a um jogo de futebol no domingo, cantar parabéns em português ou falar com frequência com familiares no Brasil.

  • Mantenha a conexão

Leiam livros e assistam a filmes e desenhos que crianças da mesma idade estão lendo e assistindo no Brasil. Assim, não só o vocabulário é mantido e desenvolvido apropriadamente a idade, mas também, quando seu filho for visitar o Brasil vai ter assuntos de um imaginário coletivo para conversar com seus amigos e familiares.



Felicia Jennings-Winterle é especialista em educação e cognição. É autora de livros e fundadora do organização cultural Brasil em Mente que promove a língua e cultura do Brasil entre as famílias que moram no exterior. Ela é editora do blog Brasileirinhos que trata de diversas questões sobre o bilinguismo, multiculturalismo e português como língua de herança.

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Olhando no espelho

Mãe lagarta em metamorfose permanente... com família a reboque mundo afora.

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